Você anda sentindo de menos e pensando demais?


Aposto que um dos maiores enganos do ser humano seja acreditar que o pensamento traz a resposta certa. Aposto também que existe uma enorme diferença entre pensar e saber. A mente pensa. O coração sabe.

Claro, pensar é importante. Muito importante. Mas fundamental mesmo é se manter em sintonia com o coração. É silenciar a mente com frequência. É meditar justamente onde o pensamento não está. Onde só tem lugar para a essência. Difícil? Com certeza. Mas com vontade e treino, é muito possível. E vale a pena. Inclusive, talvez seja um dos exercícios que mais dê sentido a vida.

A gente pensa na tentativa de entender. E quer entender pra ter a sensação (absolutamente irreal, diga-se de passagem) de que temos o controle. Não temos! Vale a reflexão sobre duas afirmações. A primeira é do filósofo e matemático René Descartes. A segunda é da escritora e jornalista Clarice Lispector:

"Penso, logo existo".
"Não tente entender. Viver ultrapassa qualquer entendimento".

Fico, sem sombra de dúvidas, com a segunda. Aliás, tenho me exercitado cada vez mais para abandonar o vício da primeira. Não existo no meu pensamento. E disso tenho certeza. Existo quando, enfim, consigo me sintonizar com o que quero, o que sinto, o que sei de mim e da minha verdade, ainda que ela possa mudar. Existo não na sensação de que entendi, mas sim na coragem que tenho de viver.

E eis que um amigo me solta essa: "Rô, não faço a menor ideia do que seja amor". Sorri um sorriso que disse: "nem eu!". Mas de tão viciada que a maioria é nessa bobagem de acreditar que o pensamento recorrente, insistente e agonizante nos conduz à melhor resposta, busquei adjetivos. Nada mais que tentativas de entendimento. Nada mais que a ilusão do controle.

Entrega, perdão, fazer pelo outro, fazer por si? Isso é amor? Ok, vamos ao dicionário: "Sentimento que predispõe alguém a desejar o bem de outrem". Boa definição. Desejar o bem é sempre sinal de amor. Deveria bastar. Deveria explicar. Mas talvez não satisfaça quem aposta que não tem a menor ideia do que seja.

Eu fico com: Olhar adiante. Seguir o fluxo. Deixar rolar. Esse é meu mantra pessoal de amor. E quando consigo praticá-lo, através de atitudes, escolhas, palavras e comportamentos, SEMPRE dá certo! Seria ótimo se não carecesse de explicações. Mas talvez careça. Justamente porque ainda somos dependentes do pensamento. Então, lá vai.

Olhar adiante: saber o que você quer. Saber e querer estão além do pensar. Precisa de uma conexão com o coração, com a intuição, com o conhecimento de si e de sua história. Olhar adiante requer sintonia com a própria alma. E isso significa retirar da frente todas as cracas (pensamentos) que não ajudam em nada. Que só contam histórias que nos paralisam. Que mentem para a nossa mente. Olhar adiante é conseguir enxergar o próprio horizonte.

Seguir o fluxo: é parar de brigar com a vida. É confiar que não entendemos tudo. É abrir mão da tentativa de controlar. É escorregar no agora, aqui, neste momento. É estar inteiro, julgando menos, muito menos. E sentindo mais, muito mais. É absorver o que está acontecendo para saber (sem ter de tanto pensar) o que fazer no próximo instante, quando ele for o presente.

Deixar rolar: sabendo o que você quer, sem brigar com a vida, fazendo a sua parte de modo coerente com sua alma, deixar rolar é carregar em si a certeza de que cada dia sendo vivido é um minúsculo capítulo da grande e verdadeira história. Qual história? Não faço a menor ideia. E é por isso que deixo rolar. Assim, fica muito mais leve, muito mais fluido e muito mais intenso e profundo.

Amor, para mim, é isso - sintonia. Sem as interferências que só servem pra fazer chiar tudo ao nosso redor. E se isso ainda te parecer vazio demais, acredite: é só porque você anda sentindo de menos e pensando demais.

Rosana Braga

Nossa eterna luta interior



Nossa alma sempre está em conflito consigo mesma, pois sempre sentimos os mais conflitantes sentimentos. Ora estamos sorridentes, felizes, quando as coisas nos correm bem, ou quando estamos amando. Ora estamos tristes, angustiados, quando algo não vai bem, quando brigamos com nosso amor. Ora ficamos tomados da mais profunda ira, quando somos vítimas de alguma injustiça, ou quando vemos cenas como essas que nos são proporcionadas pelo noticiário da televisão, ou jornais, ou seja, derramamento de óleo no mar, filhos assassinando pais, estupros, e toda uma gama de atrocidades que são especialidade da casa do bicho homem...

Li uma mensagem atribuída a "um chefe indígena", que fala bem sobre esse conflito, literalmente, "colocando o dedo na ferida". Vejam só:

Dentro de nós existem dois cachorros. Um deles, é mau... cruel. E o outro é bonzinho... dócil. Estão sempre brigando... E vence sempre aquele que eu alimentar mais...

Dessa mensagem, é fácil deduzir-se que está em nosso livre arbítrio determinar qual o instinto que irá predominar em nossos sentimentos.

Se alimentarmos mais o cachorro bonzinho, ele vencerá a luta com o outro, e em nosso interior predominarão os bons sentimentos, teremos muito mais capacidade para amar do que para odiar.

É muito mais gratificante para nosso interior termos apenas bons sentimentos. Claro, como a perfeição inexiste, sempre teremos nossos momentos de revolta, de ira mesmo contra certas injustiças, contra certas atitudes mesquinhas, contra certas maldades que existem por aí. Mas são apenas momentos ocasionais, quando o cachorro bonzinho não se alimenta direito.

Contudo, quando o cachorro maldoso recebe ração dupla, ou toma algumas vitaminas, vemos a maldade predominar... e as consequências são tristes e trágicas. Não preciso nada dizer, pois o noticiário jornalístico se encarrega de mostrar tudo que se faz de mau por este mundo afora.

Interessante, aliás, que a base do noticiário são sempre as tragédias... Por vezes, parece que televisão, ou jornal está pingando sangue. Como se não bastasse, alguns sites também adoram "pingar" essas notícias, já fartamente noticiadas pela imprensa comum.

Certo que essas coisas acontecem e devem ser noticiadas. Penso apenas que se poderia dar igual ênfase às coisas boas que acontecem... Ou será que só existe maldade neste mundo?

Importante mesmo, é cada qual procurar fazer sua parte, tratando de alimentar melhor o "seu" cachorro bonzinho, para que ele consiga, pelo menos equilibrar a briga... Gozado... brigar para ser bom... Parece um contra senso...

Até que faz sentido isso, para sermos pessoas boas e equilibradas, temos que brigar... Temos que brigar contra a revolta que por vezes cresce em nosso interior contra certos fatos que assistimos... Temos que brigar contra nossa vontade de reagir a certas provocações... Temos que brigar contra as artimanhas do cachorro mau, que vai buscar no fundo de nossa alma, aquele instinto meio selvagem que todos temos em nosso interior, e precisamos sufocar.

Enfim, o caminho para a maldade parece mais fácil e confortável, e realmente o é, pois para conseguirmos as coisas, nos bastará destruir o que outros fizeram, passar por cima de escrúpulos. Pouco teremos que construir, e é mais fácil destruir do que construir.

Contudo, apesar de dar mais trabalho, é muito mais gratificante cuidar bem do cachorro bonzinho.

Além de nos trazer um certo bem estar interior, certamente atrairemos muito mais simpatia, cuidando bem do cachorro bonzinho, um simpático e nobre hursky siberiano, mesmo que esteja um pouco arranhado pelas garras do outro, um soturno pitbull...

Esperando que possamos alimentar convenientemente nosso Hursky.

Marcial Salaverry