E se você pudesse apagar uma lembrança?


Nesta semana, assisti com a família ao filme "Brilho eterno de uma mente sem lembranças". Um clássico do cinema que conta a história de um casal que, como todos, vive uma fase difícil de um relacionamento que também já passou pela fase de intensa paixão, sonhos e muita vontade de fazer dar certo.

O sucesso da trama se deve a muitos detalhes de como ela foi criada. A história é entremeada por uma ficção científica, isto é, a possibilidade de realizar um desejo que, certamente, muitos de nós já tivemos: poder apagar uma lembrança ruim. Pelo menos ruim num determinado momento.

E quem já não teve de lidar com lembranças difíceis de digerir? Quem já não sofreu e chorou ao reviver internamente um amor que acabou, ou um relacionamento que, como no filme, entrou em crise e a paixão cedeu lugar à impaciência, intolerância, desentendimentos e desencontros?

Sim, em alguns momentos, é mesmo bastante dolorido relembrar. É muito angustiante não saber como parar de lembrar e lembrar e lembrar... daquela pessoa, daquele beijo, daquele tempo em que tudo era felicidade. Para lembrar que agora já não é bem assim. Que virou tensão, confusão, chatice.

E a polêmica estava armada. Na sala, ainda com o filme inacabado, cada um dava a sua opinião. Um dizia que seria ótimo poder apagar algumas lembranças. O outro dizia que não, que as lembranças são todas importantes e ainda bem que não podem ser apagadas. E o outro ficou em dúvida. Será? Será mesmo que até as lembranças ruins têm alguma função?

Eu, em particular, imediatamente me lembrei (e que bom poder lembrar!) do querido Evandro Mesquita, vocalista da ótima banda de rock Blitz, que fez muito sucesso nos anos 80, quando cantava a música "O romance da Universitária Otária" e num dos versos, repetia "Todo mundo quer ir pro céu, mas ninguém quer morrer".

É isso que penso. A gente quer só a parte boa da vida. Só o que nos convém. Só o que não dói. Só o prazer. Em princípio, essa ideia pode mesmo parecer bem interessante. Mas sabemos que não é assim que o ser humano funciona. Aliás, não é assim que a natureza funciona. O que é vivo precisa, essencialmente, da adversidade, da superação. O crescimento é filho da aprendizagem. E não há lição sem nenhuma dor.

Sim, claro, muito melhor que nossa intenção seja viver com prazer. Mas não pode ser, de modo algum, viver em função de evitar a dor. Não faz sentido apagar o que, em algum momento, parece-nos ruim. São as percepções de cada instante vivido que nos fazem enxergar a beleza de toda a história.

E isso também me faz lembrar da brilhante sensibilidade do poeta Rainer Maria Rilke ao dizer "Se você leva embora meus demônios, estará levando também meus anjos". Pois bem, quem continua desejando eliminar o que lhe parece chato, ruim, dolorido e angustiante neste momento, deve estar preparado para a inevitável perda do que poderia se transformar no maior tesouro de uma vida inteira.

Numa das últimas cenas do filme, as falas dos personagens centrais, vividos por Jim Carrey e Kate Winslet, fica claro que mais do que as lembranças, que podem mesmo por quaisquer razões se esvaírem de nossa memória, o que importa são os sentimentos - inapagáveis, posto que são vivos, mutantes e em constante reciclagem.

Hoje amor, amanhã dúvida, depois mágoa, depois saudade. E num outro dia qualquer, acorda amor, mais uma vez... e mais forte do que nunca! Amor por si, pelo outro, pelo mesmo, pelo novo. E se tiver coragem, desejo que você se lembre de tudo o que conseguir! E que haja lágrimas e sorrisos. Que haja história pra contar. Que haja vida pra brotar e amor pra recomeçar!


Rosana Braga




Chico Xavier e a França



Esta é a "Eglise Saint François Xavier". Fica na place du Président-Mithouard, no bairro 7 de Paris. Quando a vi imediatamente lembrei do nosso Chico Xavier.
Há muito já vinha desconfiado de que Chico Xavier era reencarnação de Allan Kardec (embora médiuns, estudiosos e o próprio filho adotivo já tivessem falado isso), mas depois que comecei a ler o livro "Kardec: A biografia", de Marcel Souto Maior (o mesmo maravilhoso escritor de "As vidas de Chico Xavier") tive certeza. E comecei a martelar as ligações entre a França e a própria doutrina espírita, que permaneceram vivas através de Chico "Kardec" Xavier.

Primeiro o nome. O nome de uma pessoa carrega uma energia importatíssima para ancorar a vivência espiritual aqui na Terra. Não à toa muitos trocam de nome ou adotam um nome iniciático quando iniciam uma nova fase da vida. Adota-se o nome como uma homenagem a alguém que se admira, ou para ancorar as energias de uma determinada linha, ou trazer ao subconsciente uma lembrança evocativa daquele nome (enfim, as possibilidades são ilimitadas). Para certos espíritos é permitido escolher e influenciar seus pais na escolha do nome, e estou desconfiado de que a espiritualidade escolheu alguém com sobrenome "Xavier" pra trazer o nosso Chico com esse nome.

Francisco Xavier é um nome bem comum no Brasil, mas encontrá-lo nessa Igreja em Paris me fez pesquisar o santo, e descobrir que a Igreja Católica Romana considera que ele tenha convertido mais pessoas ao Cristianismo do que qualquer outro missionário desde São Paulo. Embora espanhol (Basco), Francisco Xavier veio a Paris para estudar e depois tornou-se professor de Filosofia. Conheceu então Inácio de Loyola, e junto a ele e outros padres decidiram fazer um voto de pobreza na Capela Saint-Denis, no alto de Montmartre (um morro, o ponto mais alto de Paris, onde hoje fica a Basílica de Sacre Coeur). Lá eles fundaram a Companhia de Jesus, congregação religiosa destinada ao ensino, à conversão e à caridade. Foram os jesuítas da Companhia de Jesus que vieram ao Brasil para (desgraçadamente) converter nossos índios e fundar colégios do Ceará até Santa Catarina. O padre Manuel da Nóbrega, um dos primeiros a chegar, ajudou seu colega José de Anchieta na fundação da cidade de São Paulo, que cresceu em torno do Colégio Jesuíta. E foi justamente Manuel da Nóbrega uma das encarnações do mentor de Chico Xavier, Emmanuel.

Montmartre tem esse nome (Mont Martre) porque ali tinha um templo ao Deus Marte. Com o passar do tempo o sentido mudou para Monte dos mártires, já que "Martre" em francês arcaico era "mártire". Por isso havia ali, em 1500, uma capela para Saint-Denis, um dos mais famosos mártires da França. Acredita-se, embora sem evidências arqueológicas, que no morro de Montmartre, antes da ocupação romana, eram realizadas cerimônias druídicas, por ser o ponto mais alto da região. Ora, o criador do espiritismo, o professor Hippolyte Léon Denizard Rivail, não só morava próximo a Montmartre - mais exatamente na Rue des Martyrs (Rua dos mártires) - como adotou o pseudônimo Allan Kardec por conta da revelação de um espírito de que ele teria sido druida na época do imperador Júlio César, entre 58 e 44 anos antes de Cristo.

Apesar de ser Lyonês, o primeiro contato de Kardec com o espiritismo - e posterior estudo e codificação - foi feito em Paris. Kardec não era médium (talvez fosse intuitivo, mas não tinha contato diretamente), e se valeu de respostas de outros médiuns para escrever a doutrina. Quando renasceu como um dos médiuns mais poderosos do mundo teve óbvias dificuldades de adaptação a essa nova realidade. Certa vez Emmanuel precisou ir com ele em espírito visitar o local do cenário que ele queria que escrevesse, para que pudesse colocar melhor no papel os detalhes. De qualquer forma sabemos, no estudo das comunicações mediúnicas, que o cérebro do médium interfere na comunicação, como os resíduos de um cano interferem na água. Quanto menos resíduos, mais pura a água.
E por que digo isso? Porque Nosso Lar foi um livro diferente de todos os outros que Chico tinha escrito. Era um mundo sem referências visuais. Pela descrição do livro ele parece ser mais avançado e ao mesmo tempo mantendo a elegância e simplicidade de outros tempos. Pois bem: vim encontrar o "Nosso Lar" em Paris na Cité Internationale Universitaire, fundada em 1925 (mas com a arquitetura do final de 1800). A princípio não reparei, a não ser numa sensação de leveza e de estranhamento por estar me sentindo em outro mundo. Mas imaginei que era por conta da adaptação a um novo país. Mas eis que um dia, enquanto pegava sol deitado na grama, escrevi: "Morri e estou no céu. E o melhor: aqui tem Wi-fi!". E só então caiu a ficha: o que estava no meu subconsciente era a descrição e organização de "Nosso Lar", que se parece muito com a leveza e organização da arquitetura e bom-gosto franceses. 
Teria Chico trazido consigo as lembranças de impressões da vida parisiense? Ou Nosso Lar é inspirada nesse modelo? 

Todos os departamentos apareciam cultivados com esmero. A pequena distância, alteavam-se graciosos edifícios. Alinhavam-se a espaços regulares, exibindo formas diversas. Nenhum sem flores à entrada, destacando-se algumas casinhas encantadoras, cercadas por muros de hera, onde rosas diferentes desabrochavam, aqui e ali, adornando o verde de cambiantes variados. Aves de plumagens policromas cruzavam os ares e, de quando em quando, pousavam agrupadas nas torres muito alvas, a se erguerem retilíneas, lembrando lírios gigantescos, rumo ao céu.

(Chico Xavier/André Luiz; Nosso Lar)

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